domingo, 1 de maio de 2011

Gosto amargo do doce


A nuvem que passa sob o meu olhar

causa tempestade devastadora

redemoinhos da minha alma

figura mitológicas monstruosas



Hoje tive um sonho brando

no qual caminhava só num campo

lá não tinha dor, nem pranto

ao meu lado: um amigo anjo

com sua dourada harpa, cantando...



Nuvens de mel no colorido céu

pensamentos abstratos voavam

o vento soprava azul o seu véu

ambiente místico e bucólico

meus sentimentos se misturavam

na doçura da pétala de rosa branca

onde não se desmancha o que é sólido



Acordei respirando a felicidade

a batida do coração... um compasso tranqüilo

doces imagens lá fora da minha cidade

eu era Vênus, Helena de Tróia ou a rainha do Nilo

mistura de magia, encanto e gozo

alma livre sem desejo ou vontade

porque vontade é sofrimento



Só que o doce tem gosto amargo

e cada vez que desvio o olhar encontro a sombra

os rostos cansados nas calçadas

os buracos nas ruas, as rugas, tudo é fenda

descompassado... assim é o universo

o amor é antigo, puramente lenda

a realidade é carente, cansada e estática

as bocas têm hálito de mágoa

os olhos têm o brilho triste do fracasso

o coração, um acelerado descompasso



A tempestade recomeça porque é cíclica

monstros dentro do meu ser são inexoráveis

minha única certeza é a morte

a mais bela flor murcha

assim como murcham meus sonhos

a observação é o abismo do homem

feliz daquele que não observa e não critica

pois nele há contentamento eterno